domingo, 20 de setembro de 2026

Domingos e associações livres

Hoje é domingo, pé-de-cachimbo. 

Outro dia tive a grande alegria de participar o lançamento do livro da querida Celia Tolentino, A flor secreta do pé-de-cachimbo. Não vou fazer nenhuma resenha do livro aqui, o que tenho vontade de fazer, mas em outro lugar, onde mais pessoas efetivamente leiam. Aqui, nesse lugar que é quase um espaço de solipsismo,  quero falar sobre o título dessa obra literária sensacional. "Hoje é domingo, pede cachimbo", diz a parlenda. Mas assim como a autora, eu entendia a expressão "pé-de-cachimbo", que, ainda que sem nenhum sentido, fazia todo sentido na mente infantil. Hoje é domingo, e domingo é um dia que não é qualquer coisa. Ele mexe com emoções. Dia de descanso, dia de se preparar para a semana de trabalho, dia alegre e triste, por isso mesmo. Quando eu era criança, vivendo uma realidade parecida com a da autora do livro, morava na zona rural. Meus dias da semana, antes de estar na escola, eram solitários, apenas eu e minha mãe ou minha irmã, às vezes brincar com a prima vizinha, mas era uma vida marcada pela solidão do campo. Sempre cito, quando posso, os versos: "É tão profundo, o campo, que ninguém chega a ver que é triste", parte do poema "Lembrança Rural", publicado no livro Vaga Música (1942) por Cecília Meireles. Só quem cresceu no campo entende esse sentido. Estamos no final do outono, faltam dois dias para a primavera. Ontem as cigarras começaram a cantar no crepúsculo. Sempre me trazem, ou traziam, certa melancolia. Fim de tarde na roça é pura tristeza. Talvez eu é que fosse meio triste na infância, mas só agora consigo pensar dessa forma. E jogava a culpa nas coitadas das cigarras. Mas os domingos eram mais felizes. Lembro de acordar cedo, antes da maioria do povo, pois era dia de casa cheia, de macarronada com carne moída e frango assado. Nem todo domingo era isso, mas me lembro desse sentimento. Cresci. Lembro de, aos 19 anos, ter um emprego horrível no qual fiquei apenas 3 meses. Domingo, nessa época, era o desespero para mim. Domingo à noite, a morte. Odiava aquele trabalho, era assediado moralmente sempre pelo chefe, mas na época nem pensava nisso. Só sofria. Eu amava, no caso, as sextas-feiras, à noite. Sábado era o ápice. Hoje, para ser muito sincero, nada disso faz tanta diferença. Meu trabalho de professor permite alguma flexibilidade na organização do meu trabalho, o que envolve, claro, um bocado de trabalho aos finais de semana, ou às noites. E isso é ótimo. Não tenho dias particularmente favoritos ou detestáveis. Então aos domingos eu durmo até mais tarde, mas também aproveito para botar trabalhos em dia. Mas a ideia de domingo ainda tem lá sua essência: sempre faço macarronada, às vezes tem frango, às vezes não.  Mas hoje tenho outros rituais: comer pizza aos domingos à noite é um deles, e é uma alegria. Dito isso, só digo que não posso reclamar da vida ou com a vida. Tenho um trabalho que gosto, que me permite gostar dos domingos como quando era criança. Isso não é pouca coisa. E tenho esse blog, que certamente apenas eu leio, mas que me alegra muito cultivar. Bons domingos para quem estiver lendo isso. Deixe um comentário, caso você passe por aqui.


Imagem criada com auxílio de IA.


Ouvindo a playlist: 

https://open.spotify.com/playlist/6Z1K3J2nzDy91ZunMW8sGx?si=8d6343cf038443ba



terça-feira, 15 de setembro de 2026

Chuva

Tem sido uma temporada de muita chuva. E quando chove muito muitos problemas aparecem, sobretudo nesses tempo de desequilíbrio climático. Mas preciso dizer que gosto muito de dias de chuva. Sobretudo porque em nosso país épocas assim são a exceção e não a regra. Nas vezes que estive na Inglaterra, lembro de ficar muito triste por causa daquela chuva gelada todo santo dia. Mas chuva, aqui, me lembra outras coisas. Eu lembro de quando minha mãe ia na escola me buscar antes de a aula terminar, de guarda chuva. Ela nunca ia me buscar, mas quando chovia, sim. Eu também lembro de quando chovia muito e "os homens" vinham da roça mais cedo, e era toda uma quebra na rotina. Lembro ainda quando a chuva era tanta que enchia o corguinho, e a gente ia lá ver como ele, de pequenino, virava um monstro que dava medo, irreconhecível, mesmo. E nesses dia que o povo vinha da roça mais cedo, era comum juntar gente em casa, uns primos vizinhos, e eles jogaram truco. E eu fazia chá, para todos. Eu tinha uns 7 ou 8 anos, e me divertia fazendo chá para a galera toda. Eu aprendi a jogar truco bem cedo na vida. Mas nunca mais joguei. Enfim, lembro também dos dias de tempestade, aí eu não gostava, tinha um pavor absurdo, medo de o telhado cair. Mas todo mundo tinha esse medo, eu me lembro, as casas que a gente morava, na época, não eram lá muito seguras. Mas eu lembro mais dos dias de chuva contínua, sem tempestade, e a lembrança é feliz. Então hoje é um dia feliz, está chovendo de forma intermitente há dias. Demora para secar a roupa. Dá preguiça de sair de casa, e até medo, porque tem risco de queda de árvores na cidade. Mas mesmo assim eu gosto.  Dia de chuva, dia feliz.
Por fim, lembrei agora que o nome desse blog remete à chuva. 










segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Dias e dias

Estamos em um final de semana prolongado. Segunda-feira, 07 de setembro de 2026. Choveu sábado e domingo e hoje está um frio danado: 08 horas da manhã e 14 graus, o que é bastante frio para a época - logo é primavera. Minha orquídea que está no tronco da palmeira do jardim floriu. É uma alegria, pois é uma orquídea Olho-de-boneca que eu plantei. Mas parece que o calor ainda vai demorar, o que não é ruim, pois ele tende a ser forte esse ano, com o tal do El Niño e tal. Ontem eu acordei com o ouvido tampado, foi muito ruim. Estou indo e vindo com minha sinusite desde maio desse ano. Há umas semanas tenho estado melhor, mas não 100%. Até parei de nadar, que era algo que eu estava gostando (não que atividade física seja minha coisa favorita, mas deixou de ser uma opção, é uma obrigação). Agora estou apenas treinando os músculos e fazendo alguns aeróbicos quando deveria estar nadando. Mas não é a mesma coisa. Porém, não acho que seja uma boa arriscar. Ontem tive essa prova, com meu ouvido tampando do nada, sem aviso prévio nem dor, apenas acordei e ouvia tudo estranho, ecos, amplificações, distorções. A geladeira parecia uma central elétrica, a panela fervendo água parecia estar dentro da minha cabeça. O carro acelerando na esquina parecia estar vindo de outro lado e estar muito perto. Foi assustador. Mas passou. Eu tinha planos de trabalhar o dia todo ontem, mas o que fiz foi dormir. Tomar um vinho. E dormir. Depois do almoço dormi no sofá da sala por cerca de 2 horas. Foi realmente um curativo. Acordei bem melhor e hoje amanheci bem, sem problemas. Ainda sinto que o ouvido poderia estar mais livre, mas nada que atrapalhe o dia. Por sorte eu agendei o otorrino há mais de um mês e será amanhã a consulta. Vou poder tratar tudo como se deve. Mas o fato é que a crise passou. Eu soube lidar com ela e cá estou podendo falar dela no passado. Alê, meu marido, que é psicanalista, disse que eu deve estar numa fase de regressão. Eu concordo e falarei disso na minha própria análise. Assumir essa condição ontem foi importante para aliviar aquele sintoma. Acho fascinante como inventamos sintomas para escapar de determinados enfrentamentos. Como o inconsciente é fascinante. Como somos seres fascinantes. Que complexidade é a a vida. E que bonita ela também é. E que bom que estou com os ouvidos bons: enquanto escrevo isso, ouço o álbum I en tid som vår, da Marie Fredriksson. É um trabalho maravilhoso, dessa cantora sueca que marcou minha vida e segue sendo uma das vozes de conforto para meu coração. Temos dias e dias. É importante saber viver cada um, sabendo que podem ser e serão bons e ruins. 







segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Leveza

Tem épocas que parecem particularmente difíceis. Em tempos assim, escrever ajuda bastante. Mas hoje resolvi escrever um post sobre nada de mais. Nem de menos. Simplesmente sobre sentir-se leve. E não estou falando de peso corporal. Mas da alma. Não sei explicar porque estou mais leve, não sei se é sentimento duradouro ou passageiro. Mas penso que é importante que a gente registre os momentos leves. Não apenas os momentos incríveis. Muito menos apenas os momentos difíceis. Mas, sim, também deixemos marcas sobre os momentos leves, sem surpresas, sem angústias, sem euforia. Só leveza.



quinta-feira, 2 de julho de 2026

Hipertrofia emocional

Há um tempo venho tentando cuidar mais de mim. Exames de saúde realizados com regularidade, visita a médicos, cuidado com a alimentação, atividades físicas, análise e, mais recentemente, consulta a uma osteopata. De tudo isso, consigo fazer certa associação entre treinos de academia, osteopatia e a psicanálise. Todas essas atividades, dentro de seu campo, permitem um conhecimento maior sobre nosso corpo e mente. Não que isso seja tão separado (corpo/mente), mas cada atividade colabora de um jeito. Porém, as três coisas têm algo muito similar: sentimos os efeitos de forma contínua, às vezes mais, as vezes menos intensamente. Quando a gente treina, se faz certinho, no dia seguinte acorda com aquelas dorzinhas gostosas, que indicam que o músculo foi trabalhado como se esperava. A osteopatia, ao que me parece (só fui a uma consulta até agora), tem o mesmo efeito: o corpo vai aprendendo, ao longo dos dias, a dar aquela calibrada, e, mais do que isso, a se conhecer melhor - algo que, realmente, não aprendemos ao longo da vida. Por fim, mas não menos importante, a psicanálise. Essa atividade, em especial, tem um efeito curioso na gente (pelo menos, em mim): às vezes se entra na sessão buscando algo que não se sabe bem o que é, e sai de lá (muitas vezes) sem entender o que encontrou. E fica pensando nisso dias, até a próxima sessão. Falei para meu analista que às vezes a sessão lembra mesmo um treino de academia: a gente sai da sala todo contente, cheio de ideias e empolgação (nem sempre, mas muitas vezes), mas no dia seguinte acorda "dolorido", como quando fazemos musculação. Bom sinal quando isso acontece, penso eu, pois tanto a dor muscular quanto a dor espiritual/mental são sinais de que algo está sendo trabalhado. Não que tudo precise ser sofrido, mas o contato com certos sofrimentos é muito importante, seja para superá-los, seja para melhor conviver com eles. Se o músculo se desenvolve nos treinos, nossas emoções, ao longo da sessões, também vão "hipertrofiando". Acredito que o mundo seria mais interessante se as pessoas se dedicassem a pensar e a falar sobre sua vida interior com um(a) analista tanto quando se dedicam a levantar pesos nas academias. 

Imagem produzida por IA generativa.


“Viver é afinar o instrumento
De dentro pra fora
De fora pra dentro
A toda hora, a todo momento".
...
"Tudo é uma questão de manter
A mente quieta
A espinha ereta
E o coração tranquilo"


Trilha sonora:  
Leila Pinheiro - Serra do luar (Coração Tranquilo), 1992