sábado, 8 de abril de 2017

A excêntrica família de Antonia ou a crônica onde nada se conclui...

Passei o filme A excêntrica família de Antonia para meus alunos. É um dos meus filmes favoritos, e me ajuda com a discussão sobre relações de gênero. Mas o que mais me impacta nesse filme não é a discussão de gênero em si (lembrando que a diretora, Marleen Gorris, é feminista). O que mais me deixa sensibilizado nesse filme é a capacidade, sobretudo das mulheres, de saberem o que querem e se recusarem a fazer qualquer coisa que se afaste disso. Secularmente, esse é um privilégio masculino. Mas acho que raramente as pessoas fazem o que querem, mesmo os homens. E o filme sugere que é possível seguir os sentimentos e, a partir disso, construir uma existência. Antonia, viúva, mãe de Danielle, aceita a amizade do fazendeiro Bas e, depois, seu amor, mas sem se casar com ele. Danielle quer um homem para ser o pai do filho que deseja, mas entregará seu coração e seu corpo apenas para Lara, a quem vê como a Vênus, de Botticelli. Thérèse, filha de Danielle, só sabe amar a matemática e a música clássica, e sente um carinho muito especial por seu primo "bastardo" Simon, com quem tem uma filha, Sarah. As mulheres do filme recusam-se a fazer algo que esteja além de seus desejos e projetos, e isso é lindo. Nada disso acontece sem sofrimento, mas nenhuma delas está disposta a fazer concessões. Por isso, e por muitas outras coisas, o filme não é apenas sobre mulheres, ou sobre o feminino, ou o feminismo: é sobre o humano, tão lindamente expresso através das mulheres maravilhosas do filme.





Filme, na versão dublada (a única completa que encontrei on-line)



segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

10 anos do blog!

Quando comecei esse blog, no dia 27 de fevereiro de 2007, foi por estímulo de amigos. Havia uma febre, muita gente era blogueiro. Comecei achando que o blog não duraria. Mas durou. Foi um espaço interessante por um tempo, especialmente entre 2008-2009, tempo de escrita da tese de doutorado. Eu morava em São Paulo. Eu tinha 28 anos, quase 29. Eu me achava maduro, imagina, era uma criança. Farei 39 anos em abril, e tanta água passou por baixo da ponte que nem daria pra contar. Mas um pouco dessa história está no blog. Filtrada, pensada, um tanto fabulada, mas está. Houve os tempos de silêncio, acho que foram os mais difíceis. Não quis registrar. E 10 anos se passaram, e quase não percebi. Vou ficar mais atento.

O Sonho

Esse é o primeiro ano do resto da minha vida. Vou começar a dar aulas em um lugar que sempre quis, após muitos anos tentando lá e também em outros lugares. Foram quase 6 anos prestando concursos, gastando dinheiro, sofrendo muito com as derrotas, aprendendo mais ainda com elas. Mas, claro, não aconteceu do jeito que eu imaginava. Nunca é. Veio num momento dos mais conturbados e tristes. A cena que idealizei nunca se concretizou. Tudo se misturou. A vida é assim, esse caos, não tem jeito. A gente vai dando sentidos, vivendo como pode, mas não é uma linha reta onde a gente vai simplesmente atravessando obstáculos. Por isso é preciso ter projetos. A vida acadêmica ajuda nesse sentido, pois sempre temos um desses na manga, não dá pra viver apenas dando aulas. Mas é preciso projetos pessoais, metas a cumprir, sonhos a realizar. Sem isso, nada feito. Sem o sonho não se vive. 

Magritte. La condition humaine (1933)

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Apego

Sou uma pessoa apegada. Tenho dificuldade em me livrar das coisas. Exemplo: esse blog. Vai fazer 10 anos que ele existe, e eu fico pensando: o que fazer com ele? Deixar aqui, sem atualizar? Fechar o acesso público (como já fiz muitas vezes)? Excluir definitivamente? Não sei. Outro dia apaguei milhares de mensagens antigas de e-mail, foi uma grande experiência de desapego. Meu HD externo de 1 Tb está com 100 Gb livres apenas. Sigo acumulando bytes. Não sei mesmo lidar com isso. Se esse blog continuar existindo, me pergunto qual seria o motivo. Público não tem (já teve, na época em que vários amigos eram "blogueiros"), apenas eu mesmo ou algum leitor eventual que não deixa registros. Não sei mesmo. Mas deixa ele aqui, só por hoje.

Post sem título

Normalmente um post começa com um título. Não foi o caso deste aqui. Estou na quarta frase e ainda não sei sobre o que vou escrever. Ontem assisti, pela enésima vez, o filme As Horas. É um dos meus favoritos. Em uma das falas de Richard, o escritor a ser homenageado na festa planejada por Clarissa, ele diz que o ato de escrever, para ele, era muito especial: falar sobre tudo o que acontece em um mesmo momento. Isso é realmente algo incrível, e apenas uns poucos escritores conseguem fazer isso bem. Isso é coisa de artista, de poeta. Lembro de um texto do Rubem Alves em que ele descrevia a fala de uma mulher que achava estar enlouquecendo, pois começou a chorar ao descascar uma cebola, não por conta de uma reação comum nesses casos, mas por ver a beleza da cebola em si, sua textura, como sua cor mudava conforme a luz batia nela. Rubem Alves disse para ela: vou não ficou louca, ficou poeta! Eu não me lembro onde ele escreveu isso, nem se foi exatamente assim, mas sei que foi ele. Sempre gostei muito das crônicas do Rubem, um jeito simples de falar sobre coisas complexas. Teve um período da minha vida em que lê-las foi muito importante. É bom que ajuda a gente olhar para o cotidiano, para o presente. Em geral oscilamos entre a ansiedade por conta do futuro e o saudosismo sobre o passado, que só parece bom porque já não existe. Eu me pego às vezes nesse jogo bobo. Planejar o futuro é uma coisa, sofrer por ele excessivamente, é outra. A mesma coisa sobre o passado, como ficar lembrando sobre a simplicidade do mundo quando se gravava fitas K7 com músicas que tocavam no rádio. Que porcaria era aquela? Som horrível, chiados, músicas cortadas ao meio com a voz dos locutores. Enfim, tudo é jeito de fugir do presente. Por isso estou escrevendo hoje. Simplesmente porque senti vontade. Está feito.