Hoje é domingo, pé-de-cachimbo.
Outro dia tive a grande alegria de participar o lançamento do livro da querida Celia Tolentino, A flor secreta do pé-de-cachimbo. Não vou fazer nenhuma resenha do livro aqui, o que tenho vontade de fazer, mas em outro lugar, onde mais pessoas efetivamente leiam. Aqui, nesse lugar que é quase um espaço de solipsismo, quero falar sobre o título dessa obra literária sensacional. "Hoje é domingo, pede cachimbo", diz a parlenda. Mas assim como a autora, eu entendia a expressão "pé-de-cachimbo", que, ainda que sem nenhum sentido, fazia todo sentido na mente infantil. Hoje é domingo, e domingo é um dia que não é qualquer coisa. Ele mexe com emoções. Dia de descanso, dia de se preparar para a semana de trabalho, dia alegre e triste, por isso mesmo. Quando eu era criança, vivendo uma realidade parecida com a da autora do livro, morava na zona rural. Meus dias da semana, antes de estar na escola, eram solitários, apenas eu e minha mãe ou minha irmã, às vezes brincar com a prima vizinha, mas era uma vida marcada pela solidão do campo. Sempre cito, quando posso, os versos: "É tão profundo, o campo, que ninguém chega a ver que é triste", parte do poema "Lembrança Rural", publicado no livro Vaga Música (1942) por Cecília Meireles. Só quem cresceu no campo entende esse sentido. Estamos no final do outono, faltam dois dias para a primavera. Ontem as cigarras começaram a cantar no crepúsculo. Sempre me trazem, ou traziam, certa melancolia. Fim de tarde na roça é pura tristeza. Talvez eu é que fosse meio triste na infância, mas só agora consigo pensar dessa forma. E jogava a culpa nas coitadas das cigarras. Mas os domingos eram mais felizes. Lembro de acordar cedo, antes da maioria do povo, pois era dia de casa cheia, de macarronada com carne moída e frango assado. Nem todo domingo era isso, mas me lembro desse sentimento. Cresci. Lembro de, aos 19 anos, ter um emprego horrível no qual fiquei apenas 3 meses. Domingo, nessa época, era o desespero para mim. Domingo à noite, a morte. Odiava aquele trabalho, era assediado moralmente sempre pelo chefe, mas na época nem pensava nisso. Só sofria. Eu amava, no caso, as sextas-feiras, à noite. Sábado era o ápice. Hoje, para ser muito sincero, nada disso faz tanta diferença. Meu trabalho de professor permite alguma flexibilidade na organização do meu trabalho, o que envolve, claro, um bocado de trabalho aos finais de semana, ou às noites. E isso é ótimo. Não tenho dias particularmente favoritos ou detestáveis. Então aos domingos eu durmo até mais tarde, mas também aproveito para botar trabalhos em dia. Mas a ideia de domingo ainda tem lá sua essência: sempre faço macarronada, às vezes tem frango, às vezes não. Mas hoje tenho outros rituais: comer pizza aos domingos à noite é um deles, e é uma alegria. Dito isso, só digo que não posso reclamar da vida ou com a vida. Tenho um trabalho que gosto, que me permite gostar dos domingos como quando era criança. Isso não é pouca coisa. E tenho esse blog, que certamente apenas eu leio, mas que me alegra muito cultivar. Bons domingos para quem estiver lendo isso. Deixe um comentário, caso você passe por aqui.
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| Imagem criada com auxílio de IA. |
Ouvindo a playlist:
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