Acordei de manhã e lá estava: uma coisa estranha em meio lábio inferior, que eu apenas sentia ao passar a língua. “Devo estar sonhando ainda” – pensei. Ainda sonolento (fazia umas quatro horas que tinha me deitado) fui me olhar no espelho e o susto foi inevitável: minha boca estava parecendo com a da Angelina Jolie, só que bem maior. Meu lábio estava gigante, inchado, como seu eu tivesse levado um soco, ou sido picado por uma abelha. Mas não doía, não coçava, não ardia... Apenas estava enorme, inchado. Naquele momento surreal me senti como o Gregor, de Kafka, que acorda e percebe-se vivendo no corpo de um inseto. Aquilo que eu via não era eu, eu não tinha sido picado por nada, eu não tinha levado um soco, eu não tinha comido nada de diferente na noite anterior. Simplesmente aconteceu. Foi inevitável a ida ao hospital. E no caminho todas as fantasias possíveis me rondavam (alergia? ou algo mais grave? que será? nunca tive isso antes..., é, deve ser só uma alergia? e se não for? e se... e se???). Hospital. A moça: “O que você tem?... sei, sei... bem, primeiro corredor à esquerda, depois à direita, depois à esquerda, na segunda porta.” Espera. Espera. Espera. Pessoas com cara de dor, e num canal mal sintonizado da TV um desenho-animado sem graça. E gente com cara de dor. E uma senhora aos gritos, seu cãozinho havia morrido. “Calmante pra ela, sala dois à direita”. E gente passando. E nada de portas ou janelas. Eu fingia calma, apesar de não gostar de locais onde não há janelas. Assistia ao desenho que não era nada animado, mas ria. “Sr. XXX” – era eu. A médica, toda séria: “O que aconteceu?”. “Não sei, acordei assim”. ... ... ... Perguntas, perguntas, perguntas... luvas de látex, dedo na boca... “Alergia”. “Do quê?”. “Não dá pra saber, pode ser de qualquer coisa”. Antialérgico por cinco dias. Que soninho bom... Mas no mesmo dia minha boca já estava normal. O mundo pode ser mesmo um lugar perigoso.



