domingo, 10 de setembro de 2017

Uma mulher fantástica

Outro post sobre cinema e gênero: o filme Uma mulher fantástica (Sebastián Lelio, 2017). Nem sabia de sua existência e comprei o ingresso apenas pelo (belo) cartaz e pelo elogio publicitário a Lelio,  apresentado como "possível sucessor do trono de Almodóvar". Não, não é o caso. Nada a ver com o universo do cineasta espanhol. E, de qualquer modo, não seria um elogio a Lelio, que merecer ter identidade própria. O filme é muito bom, ainda que não seja sensacional. Cai em alguns clichês, escapa muito bem de outros, e traz algumas sequências memoráveis (como aquela em que a protagonista visita a sauna que seu companheiro costumava frequentar). Outro elogio ao filme é seu caráter didático: de certa forma leva o público a refletir sobre a violência sofrida pelas pessoas trans, tanto simbólica quanto física. Pode parecer pouco, mas isso é (ainda) muito necessário.

Como nossos pais

Passando para registrar que assisti Como nossos pais (Laís Bodanzky, 2017) e gostei. É mais um filme da (boa) safra atual que aborda questões de gênero. No caso, a partir de uma mulher de 38 anos, em crise enquanto mãe, filha, esposa e profissional, em um mundo (ainda) marcado por valores patriarcais. Vale o ingresso!

domingo, 27 de agosto de 2017

Mais um da Coppola

Sofia Coppola é sempre garantia de um bom filme. Hoje fui assistir O estranho que nós amamos e gostei muito. A fotografia é linda, a história é conduzida de um jeito leve (o que foi um dos motivos de críticas ao filme, que é um remake) e muito convincente. Talvez porque eu esteja um tanto imerso nas discussões de gênero nos últimos tempos, mas achei o filme de um feminismo muito bem apresentado. Mulheres no comando, em tempos de guerra. Vale muito a pena. 

domingo, 20 de agosto de 2017

Sentimento azul

Tem dias que a gente sente uma tristeza profunda, que não sabe bem de onde vem. Parece uma mistura de várias tristezas. Fico lembrando do filme Divertida Mente (Inside out, 2015). A figura da tristeza é realmente cativante, e tem uma importância crucial na história. Sem ela, a alegria sequer consegue cumprir seu papel. No começo, parece que ela atrapalha, mas não há crescimento sem tristeza. Assim, vivamos bem com a nossa, deixemos que ela venha de vez em quando, nos chame à realidade, e depois deixemos ela no seu lugar, guardada no cantinho da alma. Em dias chuvosos e frios ela irá aparecer. Talvez fique um pouco, talvez vá embora logo. Só não podemos ignorá-la, pois ela sempre terá algo importante a nos dizer. 

sábado, 8 de abril de 2017

A excêntrica família de Antonia ou a crônica onde nada se conclui...

Passei o filme A excêntrica família de Antonia para meus alunos. É um dos meus filmes favoritos, e me ajuda com a discussão sobre relações de gênero. Mas o que mais me impacta nesse filme não é a discussão de gênero em si (lembrando que a diretora, Marleen Gorris, é feminista). O que mais me deixa sensibilizado nesse filme é a capacidade, sobretudo das mulheres, de saberem o que querem e se recusarem a fazer qualquer coisa que se afaste disso. Secularmente, esse é um privilégio masculino. Mas acho que raramente as pessoas fazem o que querem, mesmo os homens. E o filme sugere que é possível seguir os sentimentos e, a partir disso, construir uma existência. Antonia, viúva, mãe de Danielle, aceita a amizade do fazendeiro Bas e, depois, seu amor, mas sem se casar com ele. Danielle quer um homem para ser o pai do filho que deseja, mas entregará seu coração e seu corpo apenas para Lara, a quem vê como a Vênus, de Botticelli. Thérèse, filha de Danielle, só sabe amar a matemática e a música clássica, e sente um carinho muito especial por seu primo "bastardo" Simon, com quem tem uma filha, Sarah. As mulheres do filme recusam-se a fazer algo que esteja além de seus desejos e projetos, e isso é lindo. Nada disso acontece sem sofrimento, mas nenhuma delas está disposta a fazer concessões. Por isso, e por muitas outras coisas, o filme não é apenas sobre mulheres, ou sobre o feminino, ou o feminismo: é sobre o humano, tão lindamente expresso através das mulheres maravilhosas do filme.





Filme, na versão dublada (a única completa que encontrei on-line)