domingo, 20 de setembro de 2026

Domingos e associações livres

Hoje é domingo, pé-de-cachimbo. 

Outro dia tive a grande alegria de organizar, com alguns colegas, o lançamento do livro da querida Celia Tolentino, A flor secreta do pé-de-cachimbo. Não vou fazer nenhuma resenha do livro aqui, o que tenho vontade de fazer, mas em outro lugar, onde mais pessoas efetivamente leiam. Aqui, nesse lugar que é quase um espaço de solipsismo,  quero falar sobre o título dessa obra literária sensacional. "Hoje é domingo, pede cachimbo", diz a parlenda. Mas assim como a autora, eu entendia a expressão "pé-de-cachimbo", que, ainda que sem nenhum sentido, fazia todo sentido na mente infantil. Hoje é domingo, e domingo é um dia que não é qualquer coisa. Ele mexe com emoções. Dia de descanso, dia de se preparar para a semana de trabalho, dia alegre e triste, por isso mesmo. Quando eu era criança, vivendo uma realidade parecida com a da autora do livro, morava na zona rural. Meus dias da semana, antes de estar na escola, eram solitários, apenas eu e minha mãe ou minha irmã, às vezes brincar com a prima vizinha, mas era uma vida marcada pela solidão do campo. Sempre cito, quando posso, os versos: "É tão profundo, o campo, que ninguém chega a ver que é triste", parte do poema "Lembrança Rural", publicado no livro Vaga Música (1942) por Cecília Meireles. Só quem cresceu no campo entende esse sentido. Estamos no final do outono, faltam dois dias para a primavera. Ontem as cigarras começaram a cantar no crepúsculo. Sempre me trazem, ou traziam, certa melancolia. Fim de tarde na roça é pura tristeza. Talvez eu é que fosse meio triste na infância, mas só agora consigo pensar dessa forma. E jogava a culpa nas coitadas das cigarras. Mas os domingos eram mais felizes. Lembro de acordar cedo, antes da maioria do povo, pois era dia de casa cheia, de macarronada com carne moída e frango assado. Nem todo domingo era isso, mas me lembro desse sentimento. Cresci. Lembro de, aos 19 anos, ter um emprego horrível no qual fiquei apenas 3 meses. Domingo, nessa época, era o desespero para mim. Domingo à noite, a morte. Odiava aquele trabalho, era assediado moralmente sempre pelo chefe, mas na época nem pensava nisso. Só sofria. Eu amava, no caso, as sextas-feiras, à noite. Sábado era o ápice. Hoje, para ser muito sincero, nada disso faz tanta diferença. Meu trabalho de professor permite alguma flexibilidade na organização do meu trabalho, o que envolve, claro, um bocado de trabalho aos finais de semana, ou às noites. E isso é ótimo. Não tenho dias particularmente favoritos ou detestáveis. Então aos domingos eu durmo até mais tarde, mas também aproveito para botar trabalhos em dia. Mas a ideia de domingo ainda tem lá sua essência: sempre faço macarronada, às vezes tem frango, às vezes não.  Mas hoje tenho outros rituais: comer pizza aos domingos à noite é um deles, e é uma alegria. Dito isso, só digo que não posso reclamar da vida ou com a vida. Tenho um trabalho que gosto, que me permite gostar dos domingos como quando era criança. Isso não é pouca coisa. E tenho esse blog, que certamente apenas eu leio, mas que me alegra muito cultivar. Bons domingos para quem estiver lendo isso. Deixe um comentário, caso você passe por aqui.


Imagem criada com auxílio de IA.


Ouvindo a playlist: 

https://open.spotify.com/playlist/6Z1K3J2nzDy91ZunMW8sGx?si=8d6343cf038443ba



terça-feira, 15 de setembro de 2026

Chuva

Tem sido uma temporada de muita chuva. E quando chove muito muitos problemas aparecem, sobretudo nesses tempo de desequilíbrio climático. Mas preciso dizer que gosto muito de dias de chuva. Sobretudo porque em nosso país épocas assim são a exceção e não a regra. Nas vezes que estive na Inglaterra, lembro de ficar muito triste por causa daquela chuva gelada todo santo dia. Mas chuva, aqui, me lembra outras coisas. Eu lembro de quando minha mãe ia na escola me buscar antes de a aula terminar, de guarda chuva. Ela nunca ia me buscar, mas quando chovia, sim. Eu também lembro de quando chovia muito e "os homens" vinham da roça mais cedo, e era toda uma quebra na rotina. Lembro ainda quando a chuva era tanta que enchia o corguinho, e a gente ia lá ver como ele, de pequenino, virava um monstro que dava medo, irreconhecível, mesmo. E nesses dia que o povo vinha da roça mais cedo, era comum juntar gente em casa, uns primos vizinhos, e eles jogaram truco. E eu fazia chá, para todos. Eu tinha uns 7 ou 8 anos, e me divertia fazendo chá para a galera toda. Eu aprendi a jogar truco bem cedo na vida. Mas nunca mais joguei. Enfim, lembro também dos dias de tempestade, aí eu não gostava, tinha um pavor absurdo, medo de o telhado cair. Mas todo mundo tinha esse medo, eu me lembro, as casas que a gente morava, na época, não eram lá muito seguras. Mas eu lembro mais dos dias de chuva contínua, sem tempestade, e a lembrança é feliz. Então hoje é um dia feliz, está chovendo de forma intermitente há dias. Demora para secar a roupa. Dá preguiça de sair de casa, e até medo, porque tem risco de queda de árvores na cidade. Mas mesmo assim eu gosto.  Dia de chuva, dia feliz.
Por fim, lembrei agora que o nome desse blog remete à chuva. 










segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Dias e dias

Estamos em um final de semana prolongado. Segunda-feira, 07 de setembro de 2026. Choveu sábado e domingo e hoje está um frio danado: 08 horas da manhã e 14 graus, o que é bastante frio para a época - logo é primavera. Minha orquídea que está no tronco da palmeira do jardim floriu. É uma alegria, pois é uma orquídea Olho-de-boneca que eu plantei. Mas parece que o calor ainda vai demorar, o que não é ruim, pois ele tende a ser forte esse ano, com o tal do El Niño e tal. Ontem eu acordei com o ouvido tampado, foi muito ruim. Estou indo e vindo com minha sinusite desde maio desse ano. Há umas semanas tenho estado melhor, mas não 100%. Até parei de nadar, que era algo que eu estava gostando (não que atividade física seja minha coisa favorita, mas deixou de ser uma opção, é uma obrigação). Agora estou apenas treinando os músculos e fazendo alguns aeróbicos quando deveria estar nadando. Mas não é a mesma coisa. Porém, não acho que seja uma boa arriscar. Ontem tive essa prova, com meu ouvido tampando do nada, sem aviso prévio nem dor, apenas acordei e ouvia tudo estranho, ecos, amplificações, distorções. A geladeira parecia uma central elétrica, a panela fervendo água parecia estar dentro da minha cabeça. O carro acelerando na esquina parecia estar vindo de outro lado e estar muito perto. Foi assustador. Mas passou. Eu tinha planos de trabalhar o dia todo ontem, mas o que fiz foi dormir. Tomar um vinho. E dormir. Depois do almoço dormi no sofá da sala por cerca de 2 horas. Foi realmente um curativo. Acordei bem melhor e hoje amanheci bem, sem problemas. Ainda sinto que o ouvido poderia estar mais livre, mas nada que atrapalhe o dia. Por sorte eu agendei o otorrino há mais de um mês e será amanhã a consulta. Vou poder tratar tudo como se deve. Mas o fato é que a crise passou. Eu soube lidar com ela e cá estou podendo falar dela no passado. Alê, meu marido, que é psicanalista, disse que eu deve estar numa fase de regressão. Eu concordo e falarei disso na minha própria análise. Assumir essa condição ontem foi importante para aliviar aquele sintoma. Acho fascinante como inventamos sintomas para escapar de determinados enfrentamentos. Como o inconsciente é fascinante. Como somos seres fascinantes. Que complexidade é a a vida. E que bonita ela também é. E que bom que estou com os ouvidos bons: enquanto escrevo isso, ouço o álbum I en tid som vår, da Marie Fredriksson. É um trabalho maravilhoso, dessa cantora sueca que marcou minha vida e segue sendo uma das vozes de conforto para meu coração. Temos dias e dias. É importante saber viver cada um, sabendo que podem ser e serão bons e ruins. 







segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Leveza

Tem épocas que parecem particularmente difíceis. Em tempos assim, escrever ajuda bastante. Mas hoje resolvi escrever um post sobre nada de mais. Nem de menos. Simplesmente sobre sentir-se leve. E não estou falando de peso corporal. Mas da alma. Não sei explicar porque estou mais leve, não sei se é sentimento duradouro ou passageiro. Mas penso que é importante que a gente registre os momentos leves. Não apenas os momentos incríveis. Muito menos apenas os momentos difíceis. Mas, sim, também deixemos marcas sobre os momentos leves, sem surpresas, sem angústias, sem euforia. Só leveza.



quinta-feira, 2 de julho de 2026

Hipertrofia emocional

Há um tempo venho tentando cuidar mais de mim. Exames de saúde realizados com regularidade, visita a médicos, cuidado com a alimentação, atividades físicas, análise e, mais recentemente, consulta a uma osteopata. De tudo isso, consigo fazer certa associação entre treinos de academia, osteopatia e a psicanálise. Todas essas atividades, dentro de seu campo, permitem um conhecimento maior sobre nosso corpo e mente. Não que isso seja tão separado (corpo/mente), mas cada atividade colabora de um jeito. Porém, as três coisas têm algo muito similar: sentimos os efeitos de forma contínua, às vezes mais, as vezes menos intensamente. Quando a gente treina, se faz certinho, no dia seguinte acorda com aquelas dorzinhas gostosas, que indicam que o músculo foi trabalhado como se esperava. A osteopatia, ao que me parece (só fui a uma consulta até agora), tem o mesmo efeito: o corpo vai aprendendo, ao longo dos dias, a dar aquela calibrada, e, mais do que isso, a se conhecer melhor - algo que, realmente, não aprendemos ao longo da vida. Por fim, mas não menos importante, a psicanálise. Essa atividade, em especial, tem um efeito curioso na gente (pelo menos, em mim): às vezes se entra na sessão buscando algo que não se sabe bem o que é, e sai de lá (muitas vezes) sem entender o que encontrou. E fica pensando nisso dias, até a próxima sessão. Falei para meu analista que às vezes a sessão lembra mesmo um treino de academia: a gente sai da sala todo contente, cheio de ideias e empolgação (nem sempre, mas muitas vezes), mas no dia seguinte acorda "dolorido", como quando fazemos musculação. Bom sinal quando isso acontece, penso eu, pois tanto a dor muscular quanto a dor espiritual/mental são sinais de que algo está sendo trabalhado. Não que tudo precise ser sofrido, mas o contato com certos sofrimentos é muito importante, seja para superá-los, seja para melhor conviver com eles. Se o músculo se desenvolve nos treinos, nossas emoções, ao longo da sessões, também vão "hipertrofiando". Acredito que o mundo seria mais interessante se as pessoas se dedicassem a pensar e a falar sobre sua vida interior com um(a) analista tanto quando se dedicam a levantar pesos nas academias. 

Imagem produzida por IA generativa.


“Viver é afinar o instrumento
De dentro pra fora
De fora pra dentro
A toda hora, a todo momento".
...
"Tudo é uma questão de manter
A mente quieta
A espinha ereta
E o coração tranquilo"


Trilha sonora:  
Leila Pinheiro - Serra do luar (Coração Tranquilo), 1992




sábado, 25 de abril de 2026

25 de abril

Hoje completo 48 anos de idade. Uau! Já escrevi aqui sobre outros aniversários, e sempre é uma sensação tão bacana, mas também impactante. O tempo que passa é algo que a gente realmente não compreende bem. Quase 50 anos. Isso realmente é qualquer coisa. É bem difícil ter essa imagem de mim mesmo. Com assim eu não tenho 16 anos? Sério que passou todo esse tempo? É um privilégio estar vivo e com saúde, podendo celebrar esse dia. Feliz aniversário para mim! Que venham muitos outros para eu poder falar aqui.



domingo, 19 de abril de 2026

48 anos e aprendendo

Na semana que vem farei 48 anos. Que felicidade.

Numa sociedade etarista, aproximar-se dos 50 anos é uma prova de resiliência. Sobretudo para as mulheres. Mas para mim, homem, cis, gay... não é tampouco a coisa mais fácil. Mas é uma prova de sucesso. Só não completa essa idade quem não vive o suficiente. Para ser muito sincero, em termos de questões relacionadas à idade, tive problemas aos 46 anos. Não me pergunte por quê. "Só sei que foi assim",  diria Chicó. Tive tantos problemas, sobretudo de saúde. Problemas que me obrigaram a mudar muitas coisas na vida: fazer análise, levar os exercícios físicos a sério, cuidar mais da saúde em geral. Então, fazer 48 anos vai ser muito legal. Será no dia 25 de abril. Logo ali. Na semana passada fui ao show do Roxette em São Paulo. Um Roxette sem Marie, mas mesmo assim foi muito legal. Um momento feliz. Dancei, cantei, lembrei de quem sou. Sou isso aqui. 48 anos, mas me vejo com todas as idades que já tive. Com todas as alegrias que já tive. Com todas as tristezas. Com todas as ansiedades. E sigo empolgado pelo que ainda tenho por viver. Tanta coisa pra sentir! Mês que vem viajo para a França, a trabalho, como tantas vezes já fiz. Que gostoso que é. Que privilégio que é. Logo chega, pelo Correio, meu LP do Roxette, Baladas en Español, versão comemorativa de 30 anos (!). As letras traduzidas não são lá essas coisas, mas Marie canta como se cada verso fosse uma declaração de amor. Lembro, nos idos 1996, o frisson que foi esse lançamento em CD! Ouvir Marie falando palavras como "amor", tão próximo do som que seria em português, foi uma felicidade. E agora vou escutar em vinil essa preciosidade. Será meu auto presente de aniversário. Enfim, 48 anos, e sinto que ainda estou aprendendo tudo. 




quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

2026 começou.

Desde agosto do ano passado não escrevia aqui. Muito trabalho, gostaria de conseguir fazer outras coisas como praticar violão, desenhar, pintar, aumentar as aulas na academia, escrever no blog, mas o fato é que a rotina vai acontecendo e nem sempre a gente faz tudo que pode ser legal e prazeroso. Pensei até em fazer um podcast, isso ainda não sumiu do horizonte, mas também não sei se vai rolar. Gosto do blog, tenho esse espaço há muitos anos. Muitos, mesmo, desde a era de ouro dos blogs. Mas o fato é que ninguém lê. Sobre o trabalho, também espero que em 2026 ele seja mais legal, que eu consiga produzir mais, sem necessariamente ser aquela pressão que nós, professores universitários, sofremos cotidianamente para publicarmos. Adoro escrever, adoro pesquisar, mas quando isso se torna uma obrigação quase quantitativa, daí fica menos divertido. Mas, depois de alguns anos, desde que fiz minha livre docência, só agora parece que tenho sentido aquela coceirinha boa, de começar uma nova pesquisa, ler coisas diferentes, ver outros filmes (minhas pesquisas em geral são sobre cinema e sociedade). O ano já tem até viagem de pesquisa/evento agendada, e promete ser bem bacana. Já dá um ânimo. Mas, enfim, hoje é apenas o primeiro dia do ano. Acordei às 8:00h, tomei meu café, e resolvi pegar um livro que adio há anos para ler, Quem Matou Meu Pai, do Édouard Louis. Esse livro ficou na minha mesinha de cabeceira durante todo o ano passado, sem eu nem começar a ler. Claro que li outras coisas, mas terminei o ano com mais livros não finalizados do que o contrário. Também tenho lido coisas de psicanálise, mas isso fica para outro post. O fato é que gostei muito de começar o ano lendo literatura, sem pensar que tem que entrar em algum relatório de pesquisa ou projeto - embora essas ideais sempre surjam, pois faz parte do meu trabalho pensar assim. Mas, mesmo assim, foi uma leitura livre, leve e prazerosa. Eu quero que esse ano tenha esse espírito. 







domingo, 24 de agosto de 2025

Desafios (antigos e superados)

(O trecho abaixo foi escrito em 19/05/2014 e salvo como Rascunho, sob o título provisório "Desafios")

<< Hoje prestei meu sétimo concurso. Foi o primeiro dia. Foi no IFCH. Na hora da prova e até o final dela eu estava animado, mas ao chegar em casa comecei a refletir e acho que sequer vou passar nessa primeira prova.
Eu não vou publicar esse post. Mas eu queria muito escrever sobre essa experiência.
Tá escrito
. >>


Edição de 24/08/2025: realmente reprovei nesse concurso, tirei nota 6,7 (ou 6,5) na prova escrita e não cheguei a fazer a prova didática. Dois anos se passaram e outros concursos aconteceram. Tornei-me docente da Unicamp em 2016, no Departamento de Ciências Sociais da Faculdade de Educação. Há tempo para tudo nessa vida. Mas a gente só compreende isso com o próprio tempo. Por isso recuperei esse post, que eu nem lembrava de ter salvo como rascunho, talvez sonhando, naquela época tão difícil, voltar aqui um dia e terminá-lo, e poder, orgulhosamente, torná-lo público. Aqui está.


Na época, o post que acabei publicado foi esse aqui:




segunda-feira, 18 de agosto de 2025

Livre associação

O menino corre pela grama. Olha os bichos, sente o vento. Mas não sente o cheio de mato que ouve falar na TV. Qual será o cheiro do mato? O menino gosta dos dias de chuva. Neles, o pai e os irmãos vêm mais cedo pra casa, e tem chá mate quentinho pra beber. A mãe vai buscar ele na escola. Não que ele não goste de estudar, mas não gosta muito da escola. Sente-se um estranho lá. Se chove muito, mas muito mesmo, tem enchente no rio. O rio é longe de casa. Dois quilômetros, talvez. Ir ao rio é sempre um evento. Em dias que tem enchente todos vão lá ver como tudo é diferente. A comida é quente, porque é feita no fogão à lenha. As visitas da cidade sempre falam: que gostosa é a comida de fogão à lenha. O menino só entendeu isso quando teve que comer comida feita na cidade, com aquele gosto ruim, que mais tarde saberia que é de cloro. Susto do menino foi saber que as gentes compram água para beber na cidade. Como assim, pagar algo que sai do chão, pronto? O leite também era comprado, e vinha em saquinhos plásticos. Horrível. Muito diferente do leite da vaca Violeta, que era cor de caramelo e fazia tanta nata que se comia com açúcar, como se fosse doce de leite. Mas o menino achava tudo isso pobreza. Queria a vida da cidade, que era limpa, não tinha moscas voando sobre a comida e nem bicho de pé. Que tinha roupa bonita de loja e não a feita pela mãe na máquina Singer. Que tinha carro, que tinha tudo lindo, mas também tinha um cheiro de fumaça que deixava ele enjoado. O menino só tinha o cheiro do mato, a família reunida nos dias de chuva, e muita vontade de ficar grande logo e conhecer o mundo. Ele ainda não conhece nada. Mas escreve sobre essas coisas e fica até feliz. 










segunda-feira, 28 de julho de 2025

Alergia Alegria

Duas palavras tão parecidas, mas tão opostas.

Desde sábado estou sofrendo aqui com uma rinite alérgica super forte.

Imagino que seja, pode ser gripe ou um resfriado.

Duro ter alegria com alergia.



segunda-feira, 12 de maio de 2025

Discos são um tesouro

Adoro comprar discos. Sobretudo, discos de vinil.

Desde criança, sempre foi um dos meus grandes sonhos de consumo: discos, fitas, depois CDs, DVDs... claro que, como éramos pobres, em casa não havia aparelhos de som, video-cassetes, nem nada disso. Apenas quando eu tinha uns 12 anos meu irmão apareceu e casa com um rádio gravador mono. E aquilo abriu minha mente. A música se tornou parte tão integrante da minha vida, que jamais saiu. Nunca mais parei de escutar música com regularidade. É incrível eu não saber tocar nada, e meio frustrante, também. Ano passado até comprei um violão para estudos, mas não fui muito adiante estudando sozinho. Pretendo encontrar um professor e avançar nisso.

Meu primeiro LP foi o Look Sharp!, do Roxette. Eu comprei em janeiro de 1992, quando voltei de uma viagem escolar, pois economizei uns trocos para isso. No entanto, fui ter um toca-discos em casa apenas 2 anos depois, presente de minha irmã, que comprou um melhor para ela. Meu primeiro CD foi uma coletânea do Roxette, de 1995. Fomos ter CD player em casa no ano seguinte. Em 1996 compramos um vídeo-cassete, mas claro que eu já tinha a VHS com os hits do Roxette esperando... DVD eu fui ter apenas em 2002, já morando com meu companheiro, em São Paulo, para fazer o mestrado. Também conseguimos comprar um bom aparelho de som nessa época, ele era maravilhoso: tinha um carrossel para 5 CDs! Uma ostentação! Montei uma bela coleção de CDs.

Mas eu já tinha uma pequena coleção de vinis, guardadinha em algum lugar. E daí o mundo resolveu trazer o vinil de volta e minha antiga paixão foi lentamente se acendendo novamente. Mas demorou para eu entrar nessa onda, de novo. Sobretudo porque eles voltaram como luxo, caríssimos. E as vitrolas, também. Mas, em 2017, ganhei do meu marido uma vitrolinha e, desde então, não parei mais de aumentar a minha coleção. Para mim, é uma alegria ir a uma loja de discos. Como uma criança na loja de brinquedos ou como um pinto no lixo (nunca entendi a origem dessa expressão, mas acho pitoresca). Encontrar um disco raro no meio de um monte de coisa que nada vale (para mim, claro), é como achar um tesouro. Por isso a metáfora do "garimpar". É bem isso. 

Hoje vou dar uma volta pelo centro da cidade, e dar uma garimpada. Vamos ver que preciosidades encontrarei.


(Imagem: https://www.buscape.com.br/toca-discos/conteudo/melhores-toca-discos)

sábado, 1 de março de 2025

Cinema e Sociedade: Ainda Estou Aqui

Sou sociólogo e minhas pesquisas sempre envolveram a relação entre arte e sociedade. Com cinema, particularmente, só comecei a trabalhar em 2011. E desde então, sigo cada vez mais envolvido com esse tema. Sempre gostei de assistir a filmes, mas nunca imaginei que isso poderia se tornar parte do meu trabalho. 

Pois bem, nada mais oportuno para quem ainda tem dúvidas sobre o poder do filme sobre o mundo social é o impacto causado pelo sucesso mundial de Ainda Estou Aqui, de Walter Salles. Estrelado por Fernanda Torres, o filme conta o drama familiar da família Paiva sob os arbítrios da ditadura brasileira. O filme me tocou, mas muitos filmes me tocam, isso não é grande mérito, no meu caso. Mas eu realmente fiquei impressionado como a forma do filme, seu modo cuidadoso de lidar com aquele horror. E, claro, muito em razão da performance fora do comum de Fernanda Torres. 

Amanhã será a premiação do Oscar. Domingo de Carnaval. A principal emissora de canal aberto irá transmitir a cerimônia, deixando, com isso, de mostrar os desfiles no Rio de Janeiro. Não é pouca coisa. O filme concorre em três categorias: melhor filme, melhor filme internacional e melhor atriz. Eu acho que tem chances, sobretudo nas últimas duas categorias. 

O clima é de final de Copa do Mundo, algo que, se não me engano enormemente, é inédito no Brasil.

Fica aí evidência das relações entre cinema e sociedade, para quem tenha duvidado disso algum dia.

Um brinde ao cinema nacional. 

Já somos vitoriosos.

Imagem: Wikipedia



 

segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

30 de dezembro de 2024

Amanhã é 31 de dezembro, último dia do ano.

Não sei se vou ter tempo ou mesmo se vou me lembrar de escrever aqui.

Então esse é um post preventivo, just in case...

Esse ano foi muito complicado, muito difícil em muitos sentidos, mas penso que também foi muito bom, justamente por conta dos desdobramentos que vieram  das dificuldades. Acho que aproveitei as crises para me compreender melhor, meus limites e minha força. 

Que venha 2025, com seus desafios, mas que ele também seja um ano mais leve.

Feliz ano novo.

domingo, 10 de novembro de 2024

Keane, 20 anos de Hopes And Fears, nos nossos 25 anos.

Ontem fomos ao Show do Keane, em São Paulo.

Resolvi escrever minhas impressões logo, senão perco a emoção do momento. 

Ouço essa banda desde o seu primeiro disco, Hopes and Fears, que faz 20 anos e é o tema da turnê atual. Na verdade, meu marido é quem sempre gostou mais do Keane, o que eu acho o máximo, uma vez que a parte mais pop do casal sou eu. E claro que eu adoro as músicas, especialmente dos três primeiros discos.

O fato é que ontem, bem quando a gente completava 25 anos de união (bodas de prata!), ganhamos de presente do universo esse show, apresentação única em São Paulo. Não podia ter sido melhor.

O show foi fabuloso e nem tenho como falar aqui sobre tudo. As performances foram impecáveis e o repertório foi excelente, mesmo para fãs menos dedicados, como é meu caso. Gosto muito mas não acompanho tudo. Então me senti feliz ao ouvir antigas canções como “Somewhere Only We Know” e “Everybody’s Changing”. A primeira canção, "Can't Stop Now", já indicava o que estava por vir. Foi uma noite de celebração. Para mim, um dos momentos mais tocantes foi em "Perfect Symmetry", que gosto muito, mas é muito difícil escolher. Por exemplo, a surpresa no Bis, com a cover de "Under Pressure", do Queen com David Bowie, uma das músicas favoritas do meu marido, foi de cair o queixo. A gente nem sonhava com isso, então foi outro presente pra gente. 

Se for para falar de alguma frustração, eu gostaria de ter escutado "Atlantic" e "Black Burning Heart", mas como eram do segundo disco, compreendo que não caberiam. O foco era no primeiro, motivo de toda a comemoração da turnê.

Enfim, só posso dizer que foi um dos melhores show da minha vida. 

A vida sem música é impossível.



segunda-feira, 4 de novembro de 2024

Final de ano chegando

 2024 foi um ano tão estranho em tantos sentidos que nem percebi que ele está quase no final. 

Novembro e dezembro são meses especiais, é meu aniversário de casamento, é aniversário do meu marido, termina o semestre letivo, chega o recesso, as festas... enfim, muita coisa legal, que me faz prestar atenção que 2024, esse ano esquisito, está acabando.

Escrevi um bocado por aqui sobre o quão estranho ele foi. O segundo semestre, porém, já foi mais leve e senti mudanças positivas, fruto de muito auto-cuidado. Demorou 46 anos mas percebi, de verdade, a importância e o sentido desse cuidado de si. Ninguém pode fazer isso pela gente. Colocar-se em primeiro lugar não é sinônimo de ser egoísta, mas justamente o contrário: só inteiros podemos pensar e agir em relação ao outro. 

Sigo nessa toada, tentando sempre prestar atenção em mim, nas minhas necessidades e nos meus desejos. E nos meus limites. 

Que venha o final do ano.


sexta-feira, 18 de outubro de 2024

Orientar

Acabei de ter uma reunião de orientação. Sou professor universitário há 9 anos e sempre penso nessa função específica, a de orientador, como de grande responsabilidade. Sempre tive bons orientadores e eles são meu referencial, tento me aproximar das qualidades deles que me fizeram o pesquisador e docente que sou hoje. Há, com isso, um medo também, o medo do lugar que ocupamos na vida das pessoas. Por exemplo, acontece de eu sonhar, até hoje, com meu orientador dos anos da pós-graduação. De certa forma, o orientador ocupa um lugar paterno, com tudo que pode vir com ele: admiração, raiva, medo... e um bocado de transferência. Claro, agora partindo um pouco para a psicanálise: o orientador acaba tendo um papel de analista. Os encontros de orientação parecem sessões de terapia, até a duração é parecida. Esse é outro aspecto que realça a responsabilidade dessa função. Mas, sim, é muito gratificante ver o crescimentos dos orientandos. Ao mesmo tempo, é divertido perceber o quando de mim está neles, nas falas, nos textos, nos trejeitos. Mas, também, como vão se constituindo como profissionais a seu modo, com suas perspectivas e modos de ver as coisas. 




quarta-feira, 16 de outubro de 2024

Arte na vida

Quando eu era criança, eu gostava de fazer arte. Brincava muito, na maior parte do tempo sozinho (por falta de opção, pois não morava perto de outras crianças em boa parte da infância, e sou muito temporão). Mas minha imaginação era boa e eu me dava bem nisso. Morava no sítio, outro elemento importante sobre minha solidão infantil. Enfim, das coisas que eu gostava de brincar, desenhar era uma delas. Muito, mesmo. Tinha algum talento, parece, pois todo mundo elogiava. Diziam que eu ia ser artista. Adorava essa ideia, mas não acreditava muito nisso. Não me tornei artista, mas tenho redescoberto o desenho como uma forma de expressão importante. Comprei um bocado de materiais e volta e meia me pego brincando de desenhar, novamente. 

Outra coisa que sempre gostei foi de música. Sempre. Meu sonho era que em casa a gente tivesse uma vitrola, mas isso nunca aconteceu. Só quando eu já era adolescente. Então eu mais cantava do que outra coisa. Não tenho voz de cantor, mas acho que sou até afinadinho para performances de box de banheiro. No entanto, o que eu mais queria na época era aprender a tocar violão. Minha irmã, quando eu tinha uns 8 anos, comprou um Giannini, para fazer um curso na paróquia da cidade. Eu achei aquilo incrível! Talvez outra hora eu conte sobre como ela comprou o violão e como eu participei de todo o processo. O fato é que ela começou o curso e eu fui me envolvendo com esse mundo. Não aprendi acordes na época, mas alguns dedilhados nas primeiras cordas, como "Parabéns pra você"e outras. Adorava. Mas isso passou e, aos 16 anos, quando eu estava muito viciado em escutar música pop-rock, tentei novamente aprender, comprei um manual de banca de jornal, mas não deu certo. Achei muito difícil. Mas a vontade nunca passou. Só adormeceu. Pois bem, esse ano, além de voltar a desenhar, resolvi que vou aprender a tocar violão. Comprei um pela internet, um bem simples, para ver se consigo aprender algo. E está dando certo! Faz dois meses e dois acordes, mas já me sinto muito feliz. Acho que dessa vez conseguirei aprender o básico para tocar algumas musiquinhas e me distrair nas tardes de verão. 

Tenho recuperado a vontade de aprender coisas. Tem tanto que posso fazer! Voltar a dirigir, que aprendi tardiamente e nunca mais voltei a praticar. Aprendi a nadar faz dois anos e me faz muito bem. Cozinhar, que além de uma necessidade, é algo que gosto. Tenho feito coisas novas na cozinha e isso também me anima. Penso em aprender Espanhol e Italiano. E começarei a fazer musculação, por conta da saúde e da idade. Os 46 anos caíram como uma bomba em mim, pois me indicaram que tenho que me cuidar muito melhor. Estou atento a isso e fazendo escolhas. A análise, como já falei aqui, foi uma delas. Tem sido muito bom.

Enfim, que venham os próximos anos e as próximas aprendizagens.

E muita arte na minha vida.









sábado, 14 de setembro de 2024

Análises

Fiz terapia por 8 anos. Foi fundamental. Consegui trabalhar questões que eram muito difíceis. Mas todas elas ligadas ao modo como eu lidava com o ambiente ao meu redor, ao meu comportamento e ao comportamento das outras pessoas. Isso não é pouco, é essencial que analisemos nosso comportamento e como ele afeta, positivamente ou não, a nossa vida. 

Chegou um dia em que minha terapeuta falou que estava chegando a hora de a gente finalizar aquele processo... que vamos combinar, já tinha sido bem longo. Mas eu ficaria ali, facilmente, por mais tempo. Mas o profissionalismo e a ética de minha terapeuta falaram mais alto, e ela me "deu alta". Mas uma "alta" relativa: me sugeriu trabalhar com outra abordagem, psicanalítica. Foi então que comecei a pensar seriamente nesse assunto, que já fazia parte dos meus planos.

Depois e um ano, em meio a uma crise, ligada a questões de saúde, busquei um analista. 

Já passou de quatro meses e vejo o quanto é importante esse processo analítico. Enfrentar os próprios fantasmas, olhar no espelho. Não existe coisa mais difícil. 

Mas sigo firme e gostando demais desse caminho. 

Sugiro enfaticamente. Faça análise.







sábado, 10 de agosto de 2024

Passando meu tempo

É sábado de manhã. São 8:35h. Acordei cedo pois hoje é dia de analise. Isso é que é compromisso. Fico até orgulhoso de mim mesmo. Está uma manhã muito fria, 12° C. Enquanto o motorista dirige, ouvimos a rádio Antena 1. É minha favorita. Escrevo para passar meu tempo. 
É isso.